Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Imagens de salvação. A arte no tempo das Invasões Francesas

A 27 de Novembro de 1807, perante o avanço das tropas napoleónicas em direcção a Lisboa, a família real portuguesa embarcava à pressa do porto de Lisboa para o Brasil, de onde só regressaria em 1821.

Acompanhando o príncipe D. João (futuro D. João VI) e a rainha D. Maria I, partia também uma comitiva com cerca de 15 mil pessoas, composta pela melhor nobreza do reino, cortesãos, ministros, clérigos, damas e crianças, entre arcas, mobiliário, moeda e pratas da casa real e de igrejas, obras de arte, …

Ao nível artístico, as invasões francesas acarretaram mais consequências do que as habituais descrições de saques e pilhagens do património de muitas das nossas igrejas, conventos e palácios. A crise política motivada pelas invasões francesas e pela partida da família real para o Brasil paralisaram o frágil desenvolvimento das Artes nacionais, levando consigo energias criativas e financeiras e quem as pudesse promover.

 

 

 
 
 

 

 

 

 

 

 


Francisco Bartolozzi

Embarque da família real para o Brasil

Arquivo Histórico-Militar, Lisboa

 

Apesar do secretismo que terá envolvido a partida da corte para o Brasil, uma gravura de Francisco Bartolozzi (colecção de gravuras do Arquivo Histórico-Militar) registou o momento e, assim, o divulgou na época através de uma imagem oficial. Uma imagem de sobriedade, onde a comitiva real se apresenta sem grande aparato, à entrada do cais de embarque de Belém, patrulhado por guardas de polícia a cavalo. A figura do príncipe, em primeiro plano, no lado direito, vê-se rodeada por cortesãos, ministros, clérigos e seges e liteiras transportando as damas e as crianças.

Opondo-se a este conjunto, ao centro, um grupo de populares, constituído sobretudo por mulheres e crianças, oferece os únicos gestos de despedida e consternação.

À esquerda, aguardam as embarcações, entre as quais se distingue as que levariam os membros reais. Ao longe, a Torre de Belém e diversas embarcações pontuam o caminho que garantiria a salvação dos Bragança e do reino, como outrora abrira os rumos para novos mundos e para o império colonial.

 

 
 
 

 

 

 

 

 

 


Domingos António Sequeira

Junot protegendo Lisboa, 1808

Óleo sobre tela, 73,5x100 cm

Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto

 

Mas, para alguns sectores da elite esclarecida, a presença das tropas napoleónicas em Portugal acalentava a esperança de uma renovação política e ideológica, capaz de findar com uma governação secular de Antigo Regime. Entre aqueles, encontramos um grande pintor que, em 1802, tinha sido nomeado “primeiro pintor da câmara e da corte” – Domingos Sequeira (1768-1837).

Em 1808, Domingos Sequeira pinta a alegoria “Junot protegendo Lisboa”, hoje pertencente ao Museu Nacional de Soares dos Reis e de que existem vários estudos preparatórios no Museu Nacional de Arte Antiga (ver mais em http://www.matriznet.ipmuseus.pt). É sob o lema da “protecção” que o exército napoleónico entra em Portugal, numa cumplicidade inicial com alguns sectores da política e cultura nacional.

Lisboa, simbolizada pela figura feminina sentada, é amparada pela Religião e o Génio Nacional, e olha consolada para o General Junot, em pé, que delicadamente lhe segura a mão e o braço, em sinal de protecção.

À esquerda, Marte, o deus da Guerra, símbolo da França, levanta-se do chão e fulmina Neptuno, o deus do Mar, símbolo da inimiga potência marítima, a Inglaterra. 

À direita, debaixo das asas de uma imensa águia imperial, aproximam-se Ceres e Minerva, simbolizando a Abundância e a Sabedoria, que Junot anunciava.

 

O trajecto de Sequeira no meio das convulsões políticas que marcaram a história portuguesa de inícios do século XIX é o exemplo das justificações económicas e financeiras que ditaram (e ditam) a conivência da produção artística ao poder instituído; mas, sobretudo, é paradigmático da subserviência da arte ao seu papel interpretativo e tradutor de mensagens ideológicas e políticas. Neste propósito, é de reconhecer o poder que era imputado aos próprios artistas, tradutores para o presente e para o futuro de uma imagem oficial dos acontecimentos, que se desejavam divulgados, esclarecidos e sobretudo confirmados. Rapidamente, Junot se fez representar como o salvador da Lisboa desfalecida, ainda que protegida pelo Génio da Nação e pela Religião.

Finalmente, o percurso de Sequeira legitima-se ainda pela debilidade das orientações ideológicas que então grassavam entre as mentes esclarecidas do país, para quem a opção entre a continuidade das ideias de Antigo Regime, que a família real portuguesa representava, e a abertura às promessas de regeneração trazidas pelas ideias napoleónicas, gerava um dilema difícil de resolver, perante as exigências francesas que equacionavam a independência nacional.

 

Sequeira pintou outras obras onde os Franceses eram glorificados. Mas, após esta atitude inicial de afrancesamento ideológico, que lhe valeria mais tarde a prisão pelos seus conterrâneos, o artista alterou drasticamente a sua produção em favor do enaltecimento das forças nacionais e da preciosa ajuda inglesa. E ao mesmo artista ficaríamos a dever a autoria da magnífica baixela oferecida pelo Estado português ao grande herói da Guerra Peninsular, o Lord Wellington.

 

Ver mais em

Sequeira (1768-1837). Um português na mudança dos tempos, Lisboa, IPM/MNAA, 1997.


 

Dorís Joana Santos

publicado por BatalhaRolica às 14:14
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