Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Reflexos das invasões francesas no Bombarral

Aproximando-se o dia da efeméride dos 200 Anos da Batalha da Roliça, divulgamos três testemunhos escritos das repercussões das invasões francesas na zona correspondente actualmente ao concelho do Bombarral.

 
 
É sinal evidente da acção dos contingentes napoleónicos um registo no “Livro de Despesas da Confraria de Santa Ana e de Nossa Senhora da Pobreza (1753-1816)”, fundada em 23 de Agosto de 1753 para dar início à construção de uma nova igreja dedicada a Santa Ana, no lugar da Columbeira (cujas ruínas resistiram às vicissitudes do seu percurso, espelho da própria história do País). Desde aquela data registavam-se anualmente as despesas com a construção do templo, assim como as derivadas da gestão corrente dos ofícios religiosos. No entanto, em 3 de Agosto de 1808, fechando as contas do ano de 1807-1808, Timóteo Monteiro, Francisco Garcia da Cruz e Maurício José da Silva (?) declaram não ter havido despesas devido à “entrada dos franceses”.
Numa vasta região compreendida entre o Mondego e o Tejo, o controlo directo pelos franceses implicara pesadas cargas fiscais sobre o povo e as instituições eclesiásticas. A proximidade do inimigo paralisou a economia, suscitou um clima de insegurança e temor, vivido com singular peso na adversidade contra a tradicional piedade religiosa do País. Na Columbeira, as obras de manutenção da Igreja de Santa Ana (já construída) devem então ter sido suspensas, assim como os gastos com a prática e as festividades divinas a cargo da Confraria.
No entanto, não nos chegaram notícias da tomada de medidas especiais para protecção das alfaias de culto perante ameaças de depredação do espólio das igrejas locais, nem destas terem sido impedidas de prestar serviço religioso para serem convertidas em palheiros, prisões ou aquartelamentos militares. Ignoram-se ocorrências de roubo ou profanação do bens das igrejas a cuidado da Confraria, quer durante o ano da ocupação, quer em consequência dos movimentos militares que ali tiveram lugar; a haver, por certo teriam sido anotadas pelos responsáveis da Confraria no sentido de prescreverem a sua resolução. 
A 3 de Agosto, quando redigem aquela declaração, os três confrades não podiam ainda saber que as encostas da serra do Picoto iriam servir de cenário a um importante confronto para o desfecho da primeira invasão francesa no território nacional. Dois dias antes, a 1 de Agosto, as tropas inglesas tinham iniciado o seu desembarque em Lavos, a Sul da Figueira da Foz; no seu trajecto em direcção a Lisboa, iriam combater com um destacamento francês nas imediações da povoação onde residiam Timóteo Monteiro, Francisco Garcia da Cruz e Maurício José da Silva (?). Porventura, estes vieram a ser observadores da Batalha da Roliça, assistindo de perto e com expectativa à movimentação das tropas…
Finalmente, após a Batalha do Vimeiro, a 21 de Agosto, e depois de quase dez meses de ocupação, os franceses retiraram-se e os portugueses puderam deleitar-se com a esperança de paz.
 
 
Nos anos seguintes, a actividade da Confraria de Santa Ana e de Nossa Senhora da Pobreza parece ter regressado à normalidade. Até que, a 28 de Outubro de 1812, fazendo o balanço anual de 1811 para 1812, uma nova declaração anotava que “em consequência da segunda invasão das tropas francesas nada se fez de despesa”.
Na realidade, uma segunda invasão ocorrera já em Março de 1809, quando Soult fizera uma nova investida. Mas, nessa altura, o desfecho foi rápido, o palco da sua acção limitou-se ao Norte português e acabou por não afectar directamente a região estremenha. Prova disso é que, em 1812, os membros da Confraria da Columbeira referem-se à nova presença francesa como a “segunda invasão”, quando deviam mencionar a terceira, iniciada com o avanço do exército de Massena, em Junho de 1810. Esta última vaga napoleónica atingiria mais significativamente a região central do País; apesar de um confronto com as tropas inglesas e portuguesas no Buçaco, Massena consegue avançar para Sul, em direcção a Lisboa, intento apenas travado nas Linhas de Torres Vedras. Iniciam-se, então, vários meses de pressão entre as duas forças: atrás daquelas linhas fortificadas, movidos pelas escassez de víveres, os contingentes franceses faziam sentir intensamente a sua presença repressiva junto das populações rurais; do outro lado, as autoridades anglo-lusas esperavam a exaustão do inimigo, incitando as comunidades locais à política da “terra queimada”.
 
Em Março de 1811, os franceses não esperaram mais pelos ansiados reforços e iniciaram a sua retirada de Portugal. Esta tinha sido a última, mas também a mais violenta invasão da Península. Por isso e apesar do inimigo ter sido expulso na Primavera de 1811, a total desarticulação da economia da região, a instabilidade e a debilidade social que esgotara os magros recursos da população não autorizaram a Confraria de Santa Ana a efectuar gastos com o cumprimento das suas obrigações de apoio cultual, pelo menos até 1812.
Nesse sentido vai também a carta que, em 20 de Janeiro de 1811, D. Rodrigo de Lencastre escreveu a D. Miguel Pereira Forjaz (Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra), pedindo um meio de subsistência porque a sua propriedade do Bombarral estava há dois meses “em poder dos Franceses” (Arquivo Histórico Militar/DIV/1/14/097/08).
 
Estes são três breves depoimentos trazidos pela escrita de alguns dos habitantes da região do Bombarral em inícios do século XIX, testemunhos simples mas significativos de quem se viu envolvido numa conjuntura que teria efeitos marcantes na história nacional e europeia.
 
 
Dóris Joana Santos
 
publicado por BatalhaRolica às 14:43
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